Pular para o conteúdo principal

Opinião: A sociedade resiste à manipulação invisível da Inteligência Artificial

Pesquisas globais revelam um despertar coletivo contra os perigos da IA e algoritmos sociais, com a sociedade adotando posturas defensivas para combater manipulações – mas os benefícios da tecnologia podem equilibrar essa equação?


*Por Marcelo Senise

Uma mudança silenciosa percorre a opinião pública: as pessoas estão deixando de aceitar passivamente o que veem nas telas. Pesquisas de institutos como Pew, Ipsos e Edelman mostram que cresce a desconfiança em relação à inteligência artificial e aos algoritmos de recomendação, e com ela emerge um comportamento mais cauteloso, quase imunológico. O público começa a desconfiar de conteúdos perfeitos demais, passa a verificar a origem do que viraliza, questiona o ritmo frenético do feed. O ceticismo, antes restrito a especialistas, ganhou as ruas.

Esse movimento tem razão de ser. A arquitetura das plataformas foi desenhada para otimizar atenção, não verdade. Algoritmos premiam o que é emocionalmente inflamável; microtargeting explora vulnerabilidades; padrões obscuros de interface empurram cliques; o FOMO governa. Some-se a isso a IA generativa, capaz de produzir textos, imagens e vozes com precisão alarmante. O resultado é um ecossistema onde manipulação não é exceção: é risco sistêmico. Deepfakes já derrubaram reputações em minutos, bots fabricam consenso, campanhas de desinformação testam discursos como quem testa anúncios.

A reação social tem sido proporcional ao incômodo. Em diferentes países, pesquisas apontam mais preocupação do que entusiasmo com a IA, especialmente quando o tema é política, segurança da informação e privacidade. Consumidores bloqueiam rastreadores, rejeitam recomendações suspeitas, pedem rótulos claros para conteúdos automatizados e penalizam marcas que brincam com a confiança. Eleitores demonstram resistência a mensagens hiperdirigidas que soam "psicológicas demais". Em resumo: a sociedade aprendeu a olhar duas vezes.

Isso não significa demonizar a tecnologia. Significa colocar limites. A mesma IA que cria armadilhas também pode ser chave de proteção. Ferramentas de detecção de deepfakes melhoram a cada semana; verificação de autenticidade por meio de assinaturas digitais e marcas d'água começa a ganhar corpo; sistemas de reputação de fontes e checagem automatizada já ajudam redações e tribunais. Algoritmos explicáveis reduzem assimetrias de informação; auditorias independentes expõem viés; design centrado no usuário corta os atalhos para a manipulação. Quando bem aplicada, a IA multiplica capacidade humana, não a sequestra.

O que falta é escala, transparência e compromisso. Precisamos de rótulos padrão para conteúdo sintetizado por IA; de relatórios públicos sobre como sistemas de recomendação priorizam conteúdo; de auditorias contínuas, não ocasionais; de controles simples, ao alcance de qualquer usuário. Educação midiática e informacional deve deixar de ser "complemento" e virar política pública: ler imagem, checar contexto, distinguir opinião de evidência, entender como o incentivo molda o feed. Privacidade por padrão, consentimento real, portabilidade de dados e interoperabilidade entre plataformas precisam sair do discurso e entrar na prática.

No nível individual, há defesas concretas e imediatas. Desative o autoplay, revise permissões, reduza notificações que sequestram atenção. Antes de compartilhar, pergunte: quem ganha com este post? Verifique a procedência, procure a fonte primária, espere alguns minutos — o tempo também é antídoto. Exija rotulagem clara de conteúdo gerado por IA e sinalize manipulações óbvias. Se o produto é gratuito, sua atenção é a moeda: trate-a como riqueza escassa.

Estamos, enfim, no ponto de virada. Pela primeira vez, a percepção coletiva alcança a sofisticação das ameaças. A sociedade entende os perigos e, antevendo a tentativa permanente de manipulação, ergue defesas. Agora é consolidar essa virada: tecnologia a serviço da autonomia, não da captura. A transparência precisa deixar de ser slogan e virar obrigação; a regulação, de promessa a enforcement; a educação, de campanha a cultura. Não aceite que códigos invisíveis decidam o que você pensa, sente e vota. Use a máquina, mas não seja usado por ela. Porque, no fim, a IA mais poderosa continua sendo a sua: a Inteligência Humana. Reivindique-a. Proteja-a. E faça dela o padrão que toda tecnologia deve respeitar.

*Marcelo Senise - Presidente do IRIA (Instituto Brasileiro para a Regulamentação da IA. Sociólogo e Marqueteiro Político, especialista em IA aplicada em Política.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Construindo o futuro: a educação transformadora de Novo Gama

No coração de Novo Gama, uma revolução silenciosa está em curso, sinalizando o amanhecer de uma nova era para a educação municipal. Sob a liderança visionária do prefeito Carlinhos do Mangão, a cidade está se estabelecendo como um modelo de excelência educacional para o estado de Goiás e além Reconhecendo que o alicerce de um futuro promissor é construído através da educação, a administração municipal tem canalizado investimentos significativos para reformar, ampliar e construir escolas, solidificando o compromisso de Novo Gama com o progresso e desenvolvimento de seus jovens cidadãos. Com uma iniciativa ambiciosa, o prefeito Carlinhos do Mangão e sua equipe entregaram nove novas escolas à comunidade. Essas instituições não são apenas estruturas físicas, mas faróis de esperança e oportunidade, projetados para fornecer um ambiente de aprendizado estimulante e acolhedor para as crianças. O compromisso com a educação de qualidade reflete um profundo entendimento de que o verdadeiro desenv...

Fieg encerra 2025 com inauguração do Edifício de Engenharias da Faculdade Senai Ítalo Bologna

Às vésperas do Natal, a Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg) comemora os bons resultados do ciclo de atividades de 2025, com entrega do novo Edifício de Engenharias da Faculdade Senai Ítalo Bologna, inaugurado terça‑feira (23/12), em Goiânia. O complexo integra pacote de expansão da rede de ensino do Sistema Indústria em Goiás e encerra as celebrações dos 75 anos da Fieg, realizadas ao longo de 2025 Foto: Pedro Santos. Na ocasião, a Federação também prestou homenagem ao engenheiro José Alves Fernandes Filho, que dá nome ao novo ambiente. Reconhecido por sua trajetória de destaque no setor industrial e na construção civil, o homenageado exerceu funções relevantes em entidades como a Associação Goiana das Empresas de Engenharia (AGE), o Sindicato da Indústria da Construção (Sinduscon/GO), o Serviço Social da Indústria da Construção (Seconci/GO) e o Sebrae Goiás, além de ter sido vice-presidente da Fieg e superintendente do Sesi Goiás no período de 2000 a 2004. Na abertura d...

BRB Seguros e MAPFRE reforçam parceria e ampliam soluções completas de proteção ao cliente

A parceria entre o Banco BRB, por meio da BRB Seguros, e a MAPFRE, referência internacional em seguros, segue se fortalecendo com o objetivo de oferecer ao consumidor soluções completas de proteção patrimonial e familiar. A atuação conjunta une atendimento consultivo, eficiência operacional e produtos adaptados às necessidades reais dos clientes Entre os destaques do portfólio está o Seguro Residencial Personalizado, que permite ao cliente escolher coberturas sob medida, além de contar com assistências emergenciais e suporte ágil em situações de risco. A proposta é ampliar não apenas a proteção de estruturas e bens, mas garantir tranquilidade e segurança em momentos adversos. Segundo o presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, a parceria tem resultado direto na experiência positiva de quem utiliza o serviço. "Estamos construindo, com a MAPFRE, um modelo que coloca o cliente no centro das soluções de proteção. Queremos que as pessoas se sintam seguras, acolhidas e tenham amparo real...